CRÍTICO E EDITOR – PARENTES PRÓXIMOS

 

Milena Ribeiro Martins - UNICAMP/Fapesp

 

 

1. A caricatura do crítico

 

As relações pessoais que se estabelecem no mercado de bens artístico-culturais, em que o valor é tantas vezes subjetivo e discutível, não costumam ser das melhores, ao menos no que diz respeito aos escritores novos, ainda não consagrados pela crítica e pelo público. Essa dificuldade não se restringe ao contato entre escritor e editor, mas também entre escritor e crítico. Da mesma forma que a imagem folclórica do editor, a do crítico também não é das melhores. Leila Perrone-Moisés recupera algumas opiniões nada animadoras sobre este sujeito que, segundo ela, “sempre foi o segundo, o inferior, o servidor”[1]:

 

Voltaire, no Dictionnaire philosophique (1764): Apareceram nas nações modernas que cultivam as letras, pessoas que se estabeleceram como críticos de profissão, assim como foram criados linguadeiros de porcos, para examinar se os animais que se levam ao mercado não estão doentes. Os linguadeiros da literatura não acham nenhum autor perfeitamente são; eles prestam contas duas ou três vezes por mês, de todas as doenças reinantes, dos maus versos feitos na capital e na província, dos romances insípidos que inundam a Europa, dos novos sistemas de física, dos segredos para matar percevejos. Eles ganham algum dinheiro com esse ofício, sobretudo quando dizem mal das boas obras e bem das más.[2]

 

Théophile Gauthier, Prefácio a Mademoiselle de Maupin (1835): Uma coisa certa e fácil de demonstrar, para aqueles que ainda duvidassem, é a antipatia natural do crítico contra o poeta, – daquele que não faz nada contra aquele que faz, – do zangão contra a abelha, – do cavalo capado contra o garanhão.[3]

 

Michel Butor, Répertoire II (1964): Essa crítica (a dos jornais) é finalmente o correlativo exato de uma literatura “comercial”. Ela exerce, na passagem, um controle da receita ou da fórmula, como um posto de exame dos produtos leiteiros ou farmacêuticos. O artigo se lê como uma análise química: excesso disto, falta daquilo, tais normas foram desrespeitadas, tais limites; estampilha negada; o que encontramos freqüentemente resumido na condenação seguinte: “Este é um produto que não conheço”, o que deveria constituir justamente, para um examinador mais livre, o cúmulo do elogio. Pois a verdadeira crítica é também aberta; não é aduana que recusa a introdução das mercadorias suspeitas depois de um rápido exame, mas o intermediário que lhes permite chegar a seu destino.”[4]

 

Tanto em Voltaire como em Michel Butor, o crítico é o examinador, o responsável pela determinação pública da qualidade da obra, embora seu diagnóstico seja sempre equivocado. Em ambos os casos, ainda, associou-se a figura do crítico à profissão e ao dinheiro (se estabeleceram, críticos de profissão, mercado, ganham algum dinheiro com esse ofício, literatura comercial, aduana, mercadorias), instâncias que também o diferenciam, pelo pragmatismo, da aura do artista. Sob o olhar desses críticos caricaturais, a literatura é diminuída, reduzida a algo materialmente analisável, passível de dissecção.

No texto de Gauthier, também se apresenta o menosprezo pelo trabalho do crítico, desta vez incidindo mais fortemente sobre a sua falta de capacidade criativa. A imagem do cavalo capado dá a dimensão do olhar do escritor contra essa figura — mutilada, inferior, incapaz. Essa é uma imagem bastante comum do crítico, freqüentemente considerado, ainda, um escritor frustrado.

Difícil seria manter esse tipo de adjetivação, hoje, para caraterizar críticos canonizados como Edgar Allan Poe, Machado de Assis, Monteiro Lobato ou Mário de Andrade, que ocuparam tanto a função do zangão como da abelha, que agiram como capados e como garanhões, e, paradoxalmente, fizeram-no a um só tempo. Na época em que escreveram, porém, esses críticos podem ter tido tantos problemas quanto outros críticos hoje menos conhecidos. Sobre Poe, por exemplo, Baudelaire informa que:

 

Sua glória de crítico prejudicou bastante sua fortuna literária. Muitos quiseram se vingar. Não houve censuras que não lhe lançassem mais tarde em rosto, à medida que sua obra se avolumava.[5]

 

Os outros três escritores-críticos não foram citados por acaso, mas porque são reconhecidos nas duas funções que executaram, tendo sido respeitados não só no momento em que produziram literatura e crítica, mas também por outras gerações de críticos, escritores e leitores (divergências de opiniões não são desrespeito à imagem do crítico). Some-se a isso o fato de que todos eles inseriram, em sua obra propriamente literária, considerações críticas, combinando portanto a “genialidade” do artista com a “infertilidade” do crítico num mesmo texto.

Embora as relações pessoais entre muitos escritores e críticos não sejam das melhores, o que possibilitou a criação destas imagens tão depreciativas, a aproximação entre os dois profissionais é estimulada pelos editores, no momento de divulgação da obra. O editor freqüentemente se refere ao crítico como um dos responsáveis pela divulgação da obra, para quem ela deve ser remetida, a fim de que o artigo produzido repercuta na sua venda. Como exemplo, vejamos alguns trechos de cartas trocadas entre Lima Barreto e 3 diferentes editores: “O Teixeira conta com o reclamo que possas fazer do livro no Brasil”[6], escreve-lhe o amigo Antônio Noronha Santos, referindo-se ao editor português Antônio Maria Teixeira e à edição das Recordações do Escrivão Isaías Caminha.

Também quando é editado em São Paulo, pela Editora da Revista do Brasil, é incentivado pelo editor Monteiro Lobato a fazer a divulgação de seu livro — Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá — entre os críticos e a imprensa local:

 

O livro está pronto. Remeti-o hoje para todas as livrarias e agentes da Revista (cerca de duzentos) de maneira que a penetração se fez em regra, com 2000 exemplares de um baque. Mando-lhe vinte exemplares para distribuir entre os críticos do Rio e jornais. Querendo mais, peça. Para os jornais de São Paulo e resto do Brasil, já remetemos.[7]

 

Por aqui já se vende alguma coisa, mas a saída grande há de ser no Rio. Se pilhas um bom artigo no Estado, como aquele do Oliveira Lima, era ótimo. Do Medeiros [e Albuquerque], por exemplo. Se você se dá com ele, arranja isso.[8]

 

Desta vez, é Francisco Schettino quem sugere a Lima Barreto, durante o processo de edição de Histórias e Sonhos: “Vão mais livros e tu os endereçarás, será conveniente para os críticos, em primeiro lugar, que servem para o “barulho”. (...) Esta coisa é urgente.”[9]

A possibilidade aventada por estas cartas é a de o crítico fazer parte do circuito comercial da obra. Não se trata de um tema novo. Voltaire e Butor já haviam se referido a ele. De maneira menos alegórica, a questão também já foi tratada na tese de Tânia Piacentini:

 

É evidente o poder divulgador da imprensa, ao qual se acrescenta o aspecto de influência normativa de que desfrutam alguns jornalistas e/ou críticos, intelectuais e/ou professores, por si próprios ou pelo órgão de imprensa onde publicam. (...) Instância legisladora de significativa importância, principalmente para o público mais especializado ou estudioso da literatura, capaz de influenciar e mesmo determinar a formação do próprio “corpus” literário, a crítica é muito mais que um simples instrumento de divulgação da obra e do autor.”[10]

 

Considerando que a divulgação é uma das etapas do comércio de livros, diretamente associada às práticas editoriais, e que o crítico está inserido neste processo, embora não trabalhe para a editora (e mesmo sem esquecer a ressalva de Piacentini — “a crítica é muito mais que um simples instrumento de divulgação da obra e do autor”), parece-nos pertinente repensar a relação existente entre a função do crítico e a do editor, isto é, observar as possíveis semelhanças entre as duas funções.

 

2. Julgamento, seleção e valor

 

Das três funções da crítica, análise, interpretação e julgamento, só restou a última. (Alfredo Bosi)[11]

 

Em 13/10/99, a revista Veja publicou um artigo de Carlos Graieb – “Resenhas podres” – que tratava, como a obra homônima (Rotten Reviews), de “asneiras” proferidas por críticos acerca de obras (hoje) primas da literatura universal. Abaixo, dois exemplos das “besteiras” citadas por Graieb:

 

Caro colega, talvez eu esteja morto do pescoço para cima, mas por mais que dê tratos à bola não consigo entender por que alguém precisa de trinta páginas para descrever como se revira na cama antes de dormir. (O editor francês Marc Humblot, ao rejeitar o primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust.)

O sr. Carlos Drummond é difícil. Por mais que esprema o cérebro não sai nada. Vê uma pedra no meio do caminho e fica repetindo a coisa feito papagaio. Homem! E não houve uma alma caridosa que pegasse nessa pedra e lhe esborrachasse o crânio com ela? (Gondin da Fonseca, crítico literário, sobre Carlos Drummond de Andrade e o poema No Meio do Caminho em particular.)[12]

 

Exemplos semelhantes a estes abundam na crítica que chamaremos de imediata[13] – isto é, aquela feita no momento do lançamento de um livro, com o mínimo possível de julgamentos prévios por parte do crítico. Curiosamente, o articulista atribui os erros, no seu texto, aos críticos, trata dos perigos da função crítica, mas cita também casos de erros de editores. Parece ter havido uma generalização: editores, quando lêem obras para selecioná-las e decidir se editam ou não, são críticos. É o caso do exemplo acima, de Marc Humblot, editor de Proust. Se Gondin da Fonseca fosse editor, não seria outro seu veredicto, senão a negativa contundente para a edição da obra de Drummond.

Críticos e editores são perigosamente responsáveis pelo julgamento de obras literárias, ainda que normalmente um o faça antes da edição e outro depois dela. Em suas funções (do crítico e do editor) está atribuir um valor aos textos que lhes caem às mãos por contingências profissionais. Nenhuma das duas funções exerce exclusivamente o julgamento, mas ele está forçosamente presente em ambas.

Euclides da Cunha, no processo de edição de Os Sertões, chegou aos editores Laemmert por intermédio do crítico José Veríssimo. Neste caso, o julgamento do crítico se deu antes do dos editores. E os editores, por sua vez, num caso semelhante a este, podem vir a editar um livro não por terem apreciado a obra, mas a opinião do crítico que a endossava. Há também a possibilidade de o escritor não ser um estreante, e o editor decidir editar um novo livro deste autor confiando no sucesso (de vendas ou de crítica) do livro anterior, ou ainda no seu julgamento pessoal acerca do(s) título(s) anterior(es).

É claro que a função de selecionar as obras a serem editadas nem sempre cabe exclusivamente ao editor, mas a um grupo de profissionais que compõem o conselho editorial, ou algo semelhante. Quando, aqui, nos referimos ao editor, estamos nos referindo àquele que desempenha, dentre outras, esta função de ler os originais, selecionar a obra a ser editada, a partir de alguns critérios (particulares ou da editora) que conferem valor à obra, julgá-la de acordo com esses critérios.

Jacó Guinsburg (da editora Perspectiva), põe a questão nos seguintes termos: “A pergunta básica é esta: este livro merece ser lido, merece circulação?”[14]

Da mesma forma, o crítico – o crítico imediato –, ao receber uma série de obras recém lançadas, deve selecionar aquelas sobre as quais pretende escrever, emitir a sua opinião a respeito do valor de tais obras, o que ele faz tendo em mente critérios ou conceitos particulares de arte e literatura (ou ainda conceitos que o periódico para o qual escreve lhe impõe); julgá-la, portanto. P. Brunel, ao referir-se à crítica dos séculos XVI e XVII, deixa claras as noções de seleção e julgamento: “O essencial da operação crítica deveria ser, portanto, separar o joio do trigo”[15].

Tristão de Ataíde mostra quais são os elementos que podem interferir na escolha da obra a ser lida – e criticada – pelo crítico semanal. Segundo ele, a escolha “é uma operação que se renova semanalmente ou pelo menos entre períodos pouco espaçados para a crítica literária que podemos chamar militante”:

 

A escolha prévia dos livros ou do livro único a ser tratado é o começo da leitura. A crítica é sempre uma seleção. (...) Estamos em face de uma massa indistinta de livros, de toda espécie, que se vão acumulando nas estantes, à espera do deu dia, da sua hora. Perplexidade. Hesitação. Aplicação de critérios empíricos ou razoáveis. A importância do autor. A atualidade do tema. A necessidade de variar o gênero de obras tratadas. A curiosidade de ler esta ou aquela obra publicada. A sugestão de um título. A falta de tempo, levando à escolha de um livro... de poucas páginas! O rumor feito em torno do livro pela publicidade, pelos outros críticos, pelo público. Existem atrasos ou esquecimentos conscientes ou inconscientes.[16]

 

Aí estão, a nosso ver de maneira evidente, algumas fortes semelhanças com o dia-a-dia do editor: ele também se vê diante de uma pilha de originais a serem lidos ou edições esgotadas a serem reeditadas. Deve hierarquizar as edições (e leituras), por critérios que podem ser a falta de tempo ou de dinheiro. Também pode ser movido por hesitações ou perplexidades no momento da escolha. Também pode ser impelido a escolher um livro pela atualidade do tema, ou pela importância do autor, ou, como vimos, pela indicação de críticos ou amigos. Também se esquece de manuscritos na gaveta...

Se formos além na comparação, utilizando ainda Tristão de Ataíde[17], notaremos outras semelhanças:

 

Lemos, portanto, de muitos modos, mas sempre sentindo um duplo remorso — ou o de perdermos o nosso tempo ou o de não correspondermos ao que a obra está pedindo de nós. (...) considero [o remorso] como acompanhando muito de perto toda a vida do crítico literário. Remorso, antes de tudo, por deixar na estante, em silêncio, por impossibilidade de tratar de todos, tantos livros que mereceriam o nosso estudo. Remorso por estar dedicando ao estudo de obras muitas vezes e mesmo quase sempre superiores a nós, ao menos no tema particular escolhido pelo autor, uma capacidade de apreciação inferior ao que exigiriam. Remorso por ler mal.[18]

 

Da mesma forma que o crítico deve ler e julgar de maneira apressada, por pressões profissionais, o editor também nem sempre pode dedicar o tempo necessário à leitura e apreciação de uma obra. Também nem sempre pode editar os livros de que gosta – que podem não ser comercialmente viáveis ou podem ainda não se enquadrar no perfil da editora.

São estes, a nosso ver, alguns dos aspectos que, de maneira mais evidente, aproximam a tarefa do crítico da do editor. Nenhum deles tem a última palavra quanto ao valor das obras que lhes chegam às mãos (e aos olhos). Proust, preterido por Marc Humblot, é hoje um dos maiores nomes da literatura universal de todos os tempos. Gondin da Fonseca pode ter sido uma pedra no caminho de Drummond, mas não impediu sua consagração. O julgamento e o valor atribuídos pelo crítico e/ou pelo editor a uma obra não são definitivos, embora ambos tenham um certo poder sobre a obra no momento de sua edição.

Esse poder confere aos dois profissionais do mercado das letras prestígio e a aura, às vezes auto-atribuída, nem sempre verdadeira, de agentes culturais. É o que se pode perceber a partir do depoimento de Flávio Aderaldo (da editora Hucitec):

 

A escolha dos títulos a publicar é um privilégio do editor. (...) Com suas decisões, o editor participa da construção de uma visão de conhecimento. (...) Gosto também desta condição que o ser diretor da editora me dá: de decidir o que publicar. E tenho consciência de que a gente intervém, ao decidir.[19]

 

Outras instâncias também podem estar exercendo a mesma função da crítica e da edição, nem sempre de maneira explícita. Na Inglaterra vitoriana, dois bibliotecários são considerados, por Eagleton, os maiores críticos literários do período. Eles participavam da determinação daquilo que poderia ou não ser lido, interferindo, portanto, na formação do gosto de uma determinada comunidade:

 

Os dois proprietários severos e moralistas das duas maiores bibliotecas circulantes, [Charles] Mudie e [W. S.] Smith, realmente monopolizaram a produção literária vitoriana, determinando tanto a forma como o caráter daquilo que se escrevia. Os dois homens intervinham ativamente na seleção dos livros de suas bibliotecas, e se consideravam os protetores da moralidade pública.[20]

 

Da mesma forma, também participam da leitura, interpretação e canonização de textos literários os diretores de teatro, minisséries televisivas, novelas, adaptações para o cinema etc. E poderíamos, ainda, voltar à própria obra de arte, em que a metalinguagem, a paródia, o plágio e outros tantos recursos deixam notar a postura crítica do escritor na leitura de outras obras literárias. É corrente, nos contos de Lobato, a citação de escritores clássicos (ou nem tanto), atitude indicativa de suas leituras e preferências literárias. O conto “Duas Cavalgaduras”, cujos primeiros parágrafos transcrevemos abaixo, é exemplar neste sentido:

 

Um grande amigo dos livros, o estudante Batista de Ribeiro Couto. Na sua dolorosa miséria de rapaz pobre, solto sem padrinhos na voragem carioca, desses bons amigos se socorria para desafogo da alma crestada aos ventos das decepções.

Falhava-lhe o sonhado emprego? Abria Dom Casmurro e logo a malícia de Capitu o empolgava, levando-o para casos bem distantes do seu dorido caso pessoal. Traía-o algum amigo? O moço embarcava para Florença no Lys Rouge, hospedava-se com Miss Bell e, de visita às igrejas com Dechartre, ei-lo embriagado no ardente amor da condessa.

O estômago, porém, é Sancho. Não digere contemplações. Exige pão. E a fome, um dia, apresentou ao estudante o seu inexorável ultimatum: Mata-me ou mato-te.

Um só recurso lhe restava: reduzir a pão duro os seus amados livros.[21]

 

Da mesma forma que a crítica e a edição, as citações e referências metaliterárias exprimem opiniões, pontos de vista do escritor acerca das obras citadas e da literatura de maneira geral, que podem se traduzir em eventuais textos críticos (se ele for um crítico, além de escritor) ou em seleções para edição (se ele for também um editor):

 

Qualquer que seja o “método de análise”, cada vez que uma obra é eleita por alguém como objeto de discurso, essa escolha já é a expressão de um julgamento. “Lire, élire” (‘Ler, eleger’), sintetizava Valéry.[22]

 

3. Conclusão

 

Crescem nossos críticos em número a tal ponto que se deveria, pelo menos, dizimá-los.[23]

 

A frase acima é de Edgar Allan Poe. Gostaria, porém, de modificá-la, para afirmar que os críticos não só crescem em número, mas explodem, expandem seus limites nem um pouco rígidos, atingindo áreas paralelas e modificando a feição dessa sua atividade repudiada por tantos, de tal maneira que se fala, hoje, na morte ou no desaparecimento da crítica.

A idéia deste trabalho é repensar os limites de atuação dessas duas categorias – o crítico e o editor – que, parece, se justapõem na figura de literatos que acumulam a função de editores e críticos, como é o caso de Monteiro Lobato, José Paulo Paes, Balzac e talvez outros.

Acreditamos que a hipótese de aproximação do crítico e do editor não desmerece a imagem de nenhum dos dois, mas amplia o grau de abrangência de suas funções e de seus julgamentos, contribuindo para abalar a estrutura dos estereótipos tão categóricos e maniqueístas que envolvem esses dois profissionais das letras – tão profissionais quanto muitos dos escritores que fizeram carreira nas letras, publicando um pouco de tudo, inclusive de crítica.



[1] Leila PERRONE-MOISÉS. Texto, crítica, escritura. São Paulo: Ed. Ática, 1978, p. 16.

[2] idem, p. 137-8.

[3] idem, p. 142.

[4] idem, p. 138.

[5] Edgar Allan POE. Poemas e ensaios. São Paulo: Globo, 1999. Prefácio de Charles Baudelaire, p. 12.

[6] Lima BARRETO. Correspondência Ativa e Passiva (2 tomos). São Paulo: Brasiliense, 1961. Carta de Antônio Noronha Santos a Lima Barreto, 27/07/1909, p. 89.

[7] idem, carta de Monteiro Lobato a Lima Barreto, 22/02/1919, p. 58.

[8] idem, s/d, p. 65.

[9] idem, 1920, p. 113.

[10] Tânia PIACENTINI. Literatura: o universo brasileiro por trás dos livros. Florianópolis: Ed. da UFSC, 1991. p. 104 e 107.

[11] In: José Maria CANÇADO. “A perda da aura”. LEIA. São Paulo, no 100, fevereiro de 1987. (p. 20-26)

[12] Revista Veja. São Paulo: Ed. Abril, 13/10/1999.

[13] Termo utilizado por Alceu Amoroso Lima em O crítico literário. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1945. (Coleção Depoimentos, no 1.)

[14] Sônia Maria de AMORIM; Vera Helena F. TREMEL. Jacó Guinsburg. São Paulo: Com-Arte, 1989. (Série Editando o Editor, volume 1) (Jerusa Pires Ferreira – org.), p. 33.

[15] P. BRUNEL ; D. MADELÉNAT; D. C. GLIKSOHN. A Crítica Literária. São Paulo: Martins Fontes, 1988. (Coleção Universidade Hoje), p. 01.

[16] A. A. LIMA. op. cit., p. 40-41.

[17] Insistimos na caracterização feita por este crítico porque ele nos parece fundamental para a análise da crítica no início do século. João Luiz Lafetá, referindo-se a ele, em 1930: a crítica e o modernismo (São Paulo: Duas Cidades, 1974), afirma: “Todas as obras importantes que surgiram por essa época passaram pelo seu crivo de julgador; foi o crítico do Modernismo, o divulgador de pesquisas literárias das vanguardas de então; sua palavra podia ser decisiva, sua opinião era capaz de consagrar, sua presença era constante e respeitada, seus juízos eram recebidos muitas vezes como definitivos, encerrando discussões.” (p. 57)

[18] A. A. LIMA. op. cit., p. 49.

[19] Conceição A. CABRINI; Maria do Carmo GUEDES. Flávio Aderaldo. São Paulo: Com-Arte: Edusp, 1991. (Série Editando o Editor, volume 2) (Jerusa Pires Ferreira – org.), p. 34, 37 e 39.

[20] Terry EAGLETON. A função da crítica. São Paulo: Livraria Martins Fontes Editora, 1991. (p. 49-50)

[21] Monteiro LOBATO. Duas Cavalgaduras. In: Negrinha. Obras Completas, volume 3. São Paulo: Brasiliense, 1948. (negritos nossos)

[22] Leila PERRONE-MOISÉS. Altas literaturas: escolha e valor na obra crítica de escritores modernos. São Paulo: Cia das Letras, 1998, p. 10.

[23] E. A. POE. op. cit. “De marginalia (excertos)”, p. 183.